quinta-feira, 15 de novembro de 2012


O Ilhéus das Cabras que enriquecem a maravilhosa paisagem da Baía Ana de Chaves em São Tomé e Príncipe minha Terra Amada.


MINHA TERRA SÃO TOMÉ
Ai minha mãe, São Tomé,de teu ventre
Generoso, me deste, minha vida
E eu, ingrato, p'ra longe parti.
Hoje longe de ti, vivo assim, dentre
Saudades, duma terra tão querida
E a vontade de voltar p'ra ti.
Quando ao fim do dia o Sol se aninha
Escondido por traz do horizonte
Fujo com ele até minha terra,
Na calma da noite que se avizinha
Numa longa e imaginária ponte
Onde toda a minha ansiedade erra

Em procuras àvidas e constantes,
Como que buscando o intangível
Que ficarão sempre no meu passado.
Deixo lá ficar tudo como dantes
E guardo em meu estojo, meu cinzel
Pois nada poderá ser alterado.

Mas não resisto e só lhe pergunto
Se ela me deixa no seu belo rosto
Tocar, levemente, como um menino.
A mêdo, perto dela ,muito junto
Do rosto, tão bonito, que dá gosto
Tudo, naquele momento, imagino.

E pergunto-lhe se ela ainda traz
Espalhado no seu corpo sereno
O gosto de mangas doces, maduras
O cheiro do maduro ananaz
Que eu, desejo, poderoso veneno,
Sorver, entre tantas outras doçuras.
Depois pergunto-lhe s' ela ainda tem
O cheiro do grão de café torrado
Que se estende por todo obô (1) fora
E que tão cedinho de manhã vem
E se queda junto a mim, ao meu lado
Mas que, mui depressa, se vai embora.

Curioso pergunto: inda trazes
Nessas tuas mãos o visco da jaca?
Ainda sabes fazer armadilhas?
Vem, vem comigo e vê s'inda tu fazes
Uma, com quaquer pequenina estaca.
Mostra-me essas tuas maravilhas.

Faz uma p'ra apanhar um ossóbó(2)
Ou uma rôla brava, mui astuta.
A ver s'inda sei, vou fazer uma,
Ali perto daquele micondó(3)
Onde ela s'aninha na cocuruta,
Antes que ela se espante e se suma.

É neste recordar de pequenino
Que eu hoje, homem maduro, já feito
Volto às minhas raízes e procuro
Nunca deixar de ser um bom menino,
Ter bons amigos e com muito jeito
Tê-los sempre ao pé de mim, no futuro.

Edgar Faustino - Março 2011...
(1) - Mato cerrado
(2) - Uma subespécie endemica de ave pequena. O nome provém, talves da palavra portuguesa " assobio" e de " obó ".
(3) - Embondeiro

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